quarta-feira, 11 de março de 2026

O Guerrilheiro da Revolução Sexual Brasileira



CARLOS ZÉFIRO

O Guerrilheiro da Revolução Sexual Brasileira

 


Alcides Caminha: o enigmático Carlos Zéfiro

Alcides Caminha foi o criador das famosas revistinhas de sacanagem: os catecismos. Eram quadrinhos com histórias eróticas – muito pornográficas para a época – que deliciaram gerações de brasileiros. Elas circularam durante os anos 50 a 70, fazendo sucesso e alegria entre os adolescentes cheios de tesão e, também, entre os homens e mulheres.

Por Antônio P. Prazeres e Marc Sander.

 


Naquele tempo, tudo relacionado a sexo era proibido, coitado de quem fosse flagrado com um exemplar dessas obscenidades, consideradas como uma total imoralidade pela sociedade tradicional da época.


 

Com todo esse pecado apontado para sua cabeça, o autor escondeu-se atrás de um pseudônimo, para preservar sua vida e seu honrado emprego no Departamento Nacional de Imigração, no Ministério do Trabalho. Assim, nos idos anos 50, porém, não tão distantes, surgia CARLOS ZÉFIRO e seus famosos catecismos.

 


Eles reinaram clandestinamente durante mais de 40 anos.

Somente em 1.991, que a Imprensa conseguiu desvendar o mistério, e descobrir a verdadeira identidade de Carlos Zéfiro: Alcides Caminha.


 

Os catecismos eram vendidos clandestinamente nas bancas de jornal, geralmente, escondidos em livros ou em outras revistas. Se ainda hoje há pessoas que não se sentem bem comprando uma revista erótica, imagine como era naquela época, quando não existia a pílula, não haviam os motéis e a noiva pra casar tinha que ser virgem!

 

Os quadrinhos de Carlos Zéfiro mostravam como era o sexo, a maravilha que os mais velhos nos proibiam. Seus desenhos extraordinários mostravam mulheres nuas, mostrando suas bocetas bem formadas que podiam dar gosto com homens fogosos, viris, com seus cacetes grandes e duros!

 

Eu era um guri quando conheci as revistinhas de Carlos Zéfiro. Elas tinham cheiro de pecado. Sempre tiveram, pois sexo era assim considerado. Eram manuais insuperáveis de putaria e prazer. Ali, os meninos se deslumbravam com o que menos conheciam e com o que mais sonhavam. Sexo. Era uma loucura ver aquelas histórias, aquelas mulheres com suas bocetas expostas, um deslumbramento. Um dia, uma aventura daquelas poderia acontecer na minha vida? Era o que cada um se perguntava, diante daqueles delírios.

 

Porque os roteiros das revistinhas eróticas de Carlos Zéfiro tinham o dom de tocar na essência da vida… E se eu for contemplado com essa aventura? E se eu estiver na pele desses homens capazes de conquistar mulheres tão incríveis? E se a rotina da minha vida puder ser tocada pelo condão dos deuses… Ah, quanto sonho cabe na cabeça de um adolescente cheio de tesão!

 

Cada um de nós entrava na pele do personagem de Zéfiro, é um mistério como ele conseguia essa magia de dar vida ao seu desenho, encarnando-o na gente. Não eram histórias excepcionalmente bem desenhadas… É tudo meio apressado... O texto ingênuo... mas o diabo (no bom sentido) é que Zéfiro tinha o dom de tocar no âmago da vida dos adolescentes e dos homens barbados... Falo por uma geração de brasileiros, para quem Zéfiro disse muito... E continuou dizendo.

 

O gostoso daquele sexo tinha uma outra face, era a fantasia da controvérsia em torno da existência de Zéfiro. Ele existia ou não existia. Era uma pessoa ou várias. E, as histórias se desdobravam. Os mais sabidos falavam na existência de um acervo de mais de 150 ou 200 edições diferentes. Havia menino que trazia na ponta da língua a série de títulos das histórias, e com o peito estufado, para parecer mais homem, discorria os nomes dos catecismos, se vangloriando: “Garçonete, Bailarina, Farsa, Troco, Medo, Divórcio, Eu e Leda, Boas Entradas, A Criada, Degraus da Vida, A Capixaba, já li todos esses”.

 

Essas revistinhas que apareciam com a assinatura de Carlos Zéfiro eram literatura clandestina... Eram vendidas com muitos cuidados. Alguns jornaleiros as escondiam num cantinho oculto da banca, pois na cabeça de todos, Zéfiro era barra pesada. Era literatura maldita. Eram 32 páginas (às vezes 28) de putaria quimicamente pura... Zéfiro era fodeção... Ou como diz um herói de Zéfiro, perturbado pela trepação num convento... Era “fodelância”... fodelância no duro... porque no

 

melê não há fodelância...”. E, as revistinhas iam parar na mão de meninos mais sacanas, os joãozinhos de sempre, apareciam nas portas dos colégios... Aqueles meninos já metidos a homenzinhos, vestidos com seus guarda-pós, ainda animando as sessões de masturbação, com as incríveis aventuras zefireanas... Pirados escondidos nos banheiros, nervosos, tesudos... Ocultando a preciosa carga da revistinha mais do que safado no meio de inocentes livros de História e Geografia, ou quem sabe de um livro de Português, ou com as primeiras lições de francês ou inglês... Ou, então do livro de Latim daquela época!

 


As revistinhas chegavam às mãos dos meninos dos anos 50, 60... pelos caminhos mais variados, chegavam... Era um mistério... Quem fazia essas histórias? Sim, ficava a pergunta no ar. Mais uma questão, mais uma tensão, uma fase da vida toda cheia de perguntas. E o fato é que essa pergunta ficou sem resposta para muitos, até 1991 quando Alcides Caminha foi enfim descoberto.

 

Sob o manto de Zéfiro, ele atravessou incólume, são e salvo, os terríveis anos da censura da ditadura militar. “Cacem esse homem! Cacem Zéfiro, inimigo da moral e dos bons costumes! Porrada nele... Devasso, inventor de histórias que prejudicam a nossa infância... E os nossos rapazes... A juventude que vai ser a salvação da pátria brasileira...


” Depois de 64, depois do golpe militar a Sociedade Tradicional Paulista e a Tradição Família & Propriedade fazem de Zéfiro um dos inimigos da própria Revolução Moralizadora... Quem era esse Zéfiro? Chegou a mobilizar a polícia no eixo Rio-São Paulo... Toda hora chegavam reclamações nas delegacias... Senhoras moralistas... Pais nervosos... Pais que costuravam ocultos no quarto dos filhos os livrinhos de Zéfiro... E, que viam os filhos “ficarem magros e nervosos de tanta masturbação”... Eles iam reclamar nas autoridades...Ouviu-se no começo dos anos setenta, que a própria Operação Bandeirante, com sede nas dependências de uma delegacia de polícia da rua Tutóia, em Vila Mariana, bairro de São Paulo... ali, onde se matava, torturava... também saíram “homis” atrás de Zéfiro... e de sua central clandestina de publicação, de criação e distribuição de “material pornográfico”.


 

Eles caçaram Zéfiro por anos e anos, e botem anos nisso, e não pegaram Zéfiro... Zéfiro: o guerrilheiro da anarquia e do delírio sexual... Zéfiro... o herói da revolução sexual brasileira.

 

Nós estamos falando de um Brasil anos 50, até pelo menos dos anos 60. Havia um moralismo tremendo. Era muito difícil um menino namorar e transar com a namorada. O menino namorava mas ia trepar com as putas. E o próprio Zéfiro mostra que as prostitutas tratavam os meninos com desdém. Nem davam prazer... Nada. Além do mais sexo era feito sempre na mesma posição.

 É, então que vem o Zéfiro e ensina para os meninos, e para todos... Para os rapazes e homens casados,

também... até para senhoras! Que sexo podia ter uma variedade infinita de situações e de posições... As mulheres de Zéfiro deliravam quando os homens deixavam a mesmice... e se jogavam na aventura de possuí-las de outras formas... elas gostavam de ser beijadas no sexo... Nas coxas... E viradas pelo avesso...


Carlos Zéfiro foi, então, um maravilhoso pedagogo da liberdade no sexo. Um aventureiro a pregar novos caminhos para a sedução... para o prazer. “Ousem! Ousem!” — era o que podíamos supor que estava nos dizendo — e era o que dizia com outras palavras, o desenhista e roteirista de histórias sexuais Carlos Zéfiro...Ele nos dizia sempre, também que o tédio é o avesso de uma boa vida sexual... que é preciso colocar nossos corpos diante desses espelhos transformadores da própria realidade... transfiguradores... mágicos... E que era preciso que nós entrássemos dentro de caleidoscópios... E que deixássemos que todas as cores tocassem nossos amores... e que a mulher devia ser tratada como uma deusa de carne... E que precisávamos ter carinho e sabedoria para conquistá-las... E que a conquista era alguma coisa que se alcançava no mundo secreto e fantástico que é a cama... Ali, onde tudo é possível, e onde tudo é renovável...


 Zéfiro se inspirava em obras de arte

 

Nas histórias de Zéfiro, subitamente, o sexo da companheira se transfigura... E os seios, as pernas, os pés, a bundinha da mulher/amante/namorada/esposa... Tudo é parte do culto... De uma religião... De alguma coisa pagã e mágica... Enfim, histórias que vêm de muito longe... Dos tempos primitivos...Zéfiro retratou mulheres e homens de uma certa época. As mulheres são carnudas, de corpos esguios, próximo de esculturas. Os seios são amplos, aconchegantes, quentinhos. As ancas são redondas e a bunda generosa. Doces mulheres de Carlos Zéfiro. E os homens, em Zéfiro são portadores de “mastros”, “pênis”, “rolos de carne” musculosos, sempre aptos a fazer a delícia de uma mulher a quem um marido relapso insatisfazia... Ou a dar nova cor à vida da viúva... ou a revelar à ninfe­ta nova faceta da vida. É o homem maduro... que ensina a gatinha gozar. O homem que escapou de todas as repressões. O guerreiro invencível do sexo. Aquele que soube preservar a própria identidade até o dia que bem quis. Foi estudado por professores, sociólogos, universitários, escreveram teses sobre ele... Tesões...

 


Zéfiro era Alcides Caminha. Um homem simples. Que não lucrou com suas criações, que ao aparecer simplesmente, declarou:

“me sinto honrado por fazer parte da história do Brasil. Mas, não se importo muito. Afinal, tudo na vida é muito efêmero. Hoje se está no apogeu, amanhã no ostracismo”.

 Depois de aparecer, o criador de Carlos Zéfiro, que tanto prazer nos deu, da mesma forma inesperada que surgiu, bem rápido foi embora, deixando este planeta para, certamente espalhar prazeres em outros lugares. Em 7 de julho de 1.992. Faleceu, sem conhecer a glória.

Quatro anos depois, seu trabalho, no entanto, voltou ao conhecimento do público ao ilustrar a capa do disco Barulhinho Bom, de Marisa Monte. E, para continuar na clandestinidade, esse trabalho da Marisa Monte foi proibido nos Estados Unidos por causa da ilustração...

“Seus desenhos extraordinários mostravam mulheres nuas, mostrando suas bocetas bem formadas que fodiam gostoso!”


 


 Capa do “Barulhinho Bom”, de Marisa Monte inspirado em Zéfiro


SUCESSO AINDA HOJE.

 

No dia 29/01/2004, a coluna “Gente Boa”, de O Globo, noticiou:

Catecismos do amor: A banca de revistas antigas da General Osório está oferecendo uma coleção de 100 revistinhas de Carlos Zéfiro, e o sucesso de venda desse patrimônio erótico-cultural carioca é óbvio. Ninguém esperava, no entanto, que o maior número de fregueses dos “catecismos”, como eram conhecidos, fosse de moças na faixa dos 20 anos.

Saiba mais sobre Carlos Zéfiro.

 

Existem vários sites na Internet falando da vida e obra zefireanas.

 

Recomendamos:

 

http://www.ludmira.hpg.ig.com.br/galeriazefiro/ZefiroP01.htm

 

http://www.ludmira.hpg.ig.com.br/galeriazefiro/zefiro3galeria.htm

 

http://www.velotrol.com.br/velotrol10/bau/velo07/zefiro/zefiro1.htm

 

http://www.mood.com.br/3a08/zefiro.asp

 

 


 

sexta-feira, 6 de março de 2026

WILL EISNER no Memorial do Gibi

 WILL EISNER no Memorial do Gibi


Considerado um dos mais importantes artistas de HQs e uma das maiores influências no desenvolvimento do gênero, William Erwin Eisner nascido dia 6 de março de 1917 foi desenhista, roteirista, arte-finalista, editor, cartunista, empresário e publicitário, filho de judeus imigrantes (o pai era uma artista oriundo da Áustria).

Eisner teve uma importância decisiva para demonstrar que histórias em quadrinhos não são só um meio de entretenimento apenas para crianças e adolescentes. Além de sua carreira de quadrinista, ensinou técnicas de HQs na Escola de Artes Visuais de Nova York, e escreveu obras fundamentais na criação de quadrinhos: Quadrinhos e a Arte Sequencial (Comics and Sequential Art) e A Narrativa Gráfica (Graphic Storytelling).

O personagem mais associado a ele é 'The Spirit', um detetive mascarado chamado Denny Colt, um herói sem super-poderes que protege os habitantes da fictícia Central City.

A série se destacou pela inovação dos enquadramentos — quase cinematográficos, com efeitos de luz e sombra — e pelas inovadoras técnicas narrativas, além da qualidade do roteiro e da arte, com belas mulheres, cenas hilariantes, melodramáticas, mas que enfatizavam sobretudo o aspecto humano dos personagens.

Ao mesmo tempo que desenhava The Spirit, Eisner fundou a American Visuals Corporation, empresa dedicada a criação de comics, vinhetas humorísticas e ilustrações, que acabou tomando a maior parte do seu tempo, separando-lhe da criação de histórias. Somente quando o editor holandês Olaf Stoop reeditou The Spirit, no começo dos anos 70, Eisner voltou a interessar-se pela criação de histórias em quadrinhos. Em 1978 produziu 'Um Contrato com Deus' (A Contract With God), que consiste em quatro histórias acerca da vida no Bronx nos anos 30, sendo uma delas inspirada numa tragédia pessoal, a perda de sua filha.

Depois desta obra, Eisner prosseguiu criando graphic novels com regularidade, como Um sinal do espaço (Life on Another Planet, 1983), O Sonhador (The Dreamer, 1986), New York - A Grande Cidade (1986), O Edifício (The Building, 1987), Ao Coração da Tempestade (To the Heart of the Storm, 1991), Invisible People (1991-92), entre outros. Um mês antes de morrer concluiu sua obra mais política, O Complô (The Plot, 2005), um ensaio gráfico sobre a história da farsa do livreto Os Protocolos dos Sábios de Sião.

Em 1988 a indústria dos quadrinhos prestou tributo à Eisner criando o Prêmio Will Eisner, que se tornou uma das mais renomadas premiações do meio das histórias em quadrinhos.

Will Eisner morreu em 3 de janeiro de 2005 aos 87 anos.