Gibilândia:
quadrinhos
Na segunda metade da década, praticamente todas as revistas
em quadrinhos brasileiras tinham diminuído de tamanho, seguindo o modelo dos
gibis da Abril — que concentrava as histórias da Disney, já inteiramente
produzidas no Brasil.
Mas os quadrinhos não eram mais só para crianças nem só
para fãs — estavam começando a virar mania. Em 1977, no embalo do sucesso da
série da Globo, a Abril lançou o gibi do Sítio do Pica-Pau Amarelo, mantendo o
mesmo clima da TV, misturando temas folclóricos e assuntos do dia-a-dia. No
número 13, em 1978, Tia Nastácia é convocada para ser a cozinheira oficial da
Seleção Brasileira, rumo à Copa da Argentina.
No dia 24 de junho de 1975, a Rio Gráfica e Editora lançou o
que muitos consideram um dos títulos mais importantes dos quadrinhos no Brasil:
o Almanaque do Gibi Nostalgia, uma edição especial, em formato tablóide, 132
páginas, reunindo antigas histórias de personagens clássicos.
Entre elas, a
primeira aventura do Fantasma, de Lee Falk com desenhos de Ray Moore, de 1936,
mais histórias de Mandrake, Dick Tracy, Agente Secreto X-9 e Jim das Selvas e
The Spirit. O Almanaque era uma edição especial do Gibi Semanal lançado pela
Rio Gráfica em setembro de 1974, e, em mais cinco edições, publicou histórias
de Flash Gordon, Little Nemo, Príncipe Valente, Ferdinando e um clássico dos
quadrinhos brasileiros, o Garra Cinzenta, de Renato Silva e Francisco Armond,
de 1937.
Em 1976, foi lançado um solitário número do Almanaque do Gibi
Atualidade, com trabalhos contemporâneos, como a primeira história de
Valentina, de Guido Crepax, e uma história de Corto Maltese, de Hugo Pratt. A
última edição do Gibi Semanal saiu em 30 de julho de 1975. O Gibi Mensal deixou
de circular em dezembro do mesmo ano. E o Almanaque do Gibi Nostalgia
sobreviveu até o final de 1977.
Em agosto de 1977, a Ebal — Editora Brasil América — lança a
Coleção Invictus, com os personagens Flash, Lanterna Verde e Arqueiro Verde. As
revistas tinham capas e contracapas que funcionavam separadamente, no formato
“flip flop” e saíam a cada dois meses. Em matéria de revistas de antologia de
tiras, a Patota continuava dominando.
Mas, a partir do final de 1974 e até
1979, ela tinha uma concorrente: a Eureka, da Editora Vecchi, que, além das
tiras, também trazia uma ou duas histórias completas. Editada pelo legendário
Otacílio D’Assunção, o Ota (também editor da Mad brasileira), por suas páginas
circularam, entre outros, Versus, de Jack Wohl; Feiffer, de Jules Feiffer;
Pafuncio, de Kavanagh; O Campo de I. de Brant Parker & Johnny Hart; Hagar o
Horrível, de Dik Browne.
Numa peculiar e saborosa confluência de duas tendências do
final da década — os comix e as mulheres peladas —, a revista Status, da
Editora Três, lança a mensal Status Humor, com quadrinhos e charges principal
mas não exclusivamente eróticos de grandes nomes internacionais como Hovi,
Mordillo, Quino, Sempé, Kiraz, Slashty, Tetsu, Anscomb, Aldebert, Pat Mallet,
Du Bouillon, Siné, Wolinski e outros. A prata da casa também brilhava com Nani,
Juarez Machado, Daniel Azulay, Carlos Estevão, Henfil, Jaguar, Millôr Fernandes
e Duguay.
A explosão dos quadrinhos brasileiros
Não mais a província exclusiva nem do desbunde nem da
substituição de importações, os quadrinhos feitos aqui mesmo parecem jorrar de
todos os cantos nos últimos 70.

Além da multiplicação de espaços na ainda
chamada grande imprensa, vários títulos independentes pipocam reunindo e
lançando uma nova geração de artistas. Entre eles está a Ovelha Negra, de São
Paulo, editada por Geandre (Lacerte estreou nela); a Vírus, carioca, editada
por Luiz dos Santos Mermelstein e Roberto Anbinder (Luiz Stein publicava
trabalhos nela com o pseudônimo Leib); a hilaria Quadrins, gaúcha, só com
temática gaudéria; a Cabramacho, do Rio Grande do Norte, editada por Lindberg,
apenas com HQs nordestinas; A Raleta, editada por Pimentel, com colaboração de
Luscar, Nani, Ota; e a Crás!, da editora Abril, que durou apenas seis edições,
trazendo Renato Canini (Kaktus Kid, Lobisomem), Ruy Perotti (Satanés), Zélio,
Xalberto, Cica, Ivan Saidenberg, Jayme Cortez, Waldir Igayara de Souza, Miguel
Paiva e muitos outros, numa proposta ousada para um título de uma grande
empresa: mostrar o trabalho de argumentistas e desenhistas, profissionais ou
amadores, que, nos mais variados gêneros e estilos, buscam valorizar as
histórias em quadrinhos brasileiras (texto da apresentação do primeiro número).

“Uma revista de quadrinhos, humor e outras mumunhas que
pretende questionar os valores da estética, da moral e da cultura de massa,
revelando, em sua maioria, nomes que só agora passam a despontar nos quadros da
produção artística brasileira.”
(Moacy Cirne, Prefácio da revista Vírus, outubro/novembro
de 1976)
QUADRINHOS DE ARREPIAR
A progressiva leniência da antes implacável censura
contribuiu para que os quadrinhos de terror se firmassem de vez. Não precisavam
mais disfarçar seus baixos instintos — provocar arrepios, tremores e outras
manifestações físicas do horror e do prazer, sempre tão intimamente conectados
— atrás de piadinhas e fantasminhas. Vampiras gostosas, almas do outro mundo
com más intenções, monstros lúbricos e canibais com grande apetite circulavam
livremente.
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| REVISTA PLANETA dos MACACOS |
A líder era a Kripta, lançada em 1976 pela Rio Gráfica e
Editora com o slogan “Com Kripta, qualquer dia é sexta-feira, qualquer hora é
meia-noite”. A revista trazia material da Warren Comics e quadrinhos assinados
por Neal Adams, Esteban Maroto, José Ortiz, Paul Neary, Bernie Wrightson, Luiz
Bermejo, entre outros.
Correndo atrás, vinha a Calafrio da Bloch Editores, com a
linha de horror da Marvel: Drácula, Lobisomem, Múmia, Frankenstein, Aventuras
Macabras e outras. A Noblet finalmente lançou a sensualíssima Vampirella de
Frank Frazetta, e a Ebal tirou das gavetas todas as histórias sinistras do
catálogo da DC Comics.
Em janeiro de 1977 a briga pelos corações, mentes e outras
partes do corpo dos leitores ficou séria: a Editora Vecchi passou a publicar a
Spektro. Inicialmente a revista trazia apenas as historinhas do Dr. Spektro, da
americana Gold Key, mas, graças ao espírito investigativo do legendário Ota —
que, dizem as lendas, achou na APLA (Agência Periodística Latino-Americana,
licenciadora de nove entre dez quadrinhos americanos da época) um sensacional
lote de histórias de terror dos anos 50, muitas inéditas, e arrebatou o lote a
preço de banana — a Spektro decolou.
Ota também trouxe para a Spektro o trabalho de artistas
brasileiros, publicando as séries de terror Hotel Nicanor, de Flavio Colin, e O
Homem do Patíbulo, de Elmano Silva, além de especiais sobre cangaceiros,
macumba e magia negra, e histórias de Watson Portela, Mano, Júlio Shimamoto,
Manoel Ferreira, Itamar Lobo, Eugênio Colonnese e muitos outros.
A Spektro deu duas “crias” com material predominantemente
nacional: a Sobrenatural e a Histórias do Além, ambas em 1979, sob os cuidados
de Ota.
Novelas gráficas e anti-heróis:
quadrinhos a sério
Nos Estados Unidos, os dois gigantes — DC Comics e Marvel —
passavam por uma entressafra na qual só Daredevil, de Frank Miller, violento e
urbano, se destacava. Mas a multiplicação de lojas especializadas em HQ davam
uma nova amplitude e seriedade para um gênero até então visto como descartável.
Em 1976, dois amigos de Seattle, fãs de quadrinhos — Gary
Groth e Kim Thompson — fundaram a editora Fantagraphics, dedicada a quadrinhos
independentes. Além da revista de ensaios Comics Journal, a Fantagraphics pescava
obras dos quadrinhos desbundados dos 60 e lançava uma nova geração de artistas
alternativos e suas criaturas anti-heróicas, cool, irônicas: os irmãos Jaime,
Gilbert e Mario Hernandez e sua Love and Rockets, Daniel Clowes e Ghost World,
Harvey Pekar e American Splendor, Chris Ware e Acme Novelty Library.

Em outubro de 1978, a Baronet Books de Nova York lança um
livro com um título inusitado: A Contract with God (and Other Tenement
Stories), livro do veterano Will Eisner, reunindo várias histórias ambientadas
nos bairros mais pobres de Manhattan. Não era a primeira vez que a expressão
“novela gráfica” era usada, mas era o uso mais notório do termo, logo na capa
de um volume, para definir uma narrativa de ficção em quadrinhos. Segundo o
próprio Eisner, o termo lhe veio à cabeça no meio de uma conversa telefônica
com o presidente da editora: “Uma voz na minha cabeça me disse: ‘Não diga a ele
que é uma HQ, ele vai bater o telefone na sua cara’. Então eu falei: ‘Ah, é uma
novela gráfica’. E o presidente respondeu: ‘Uau! Que interessante! Venha me
mostrar!’”.

Do outro lado do Atlântico, na França, quatro amigos — os
artistas Jean Giraud (mais conhecido como Moebius), Bernard Farkas e Philippe
Druillet e o jornalista e escritor Jean-Pierre Dionnet — lançavam, em dezembro
de 1974, a revista que define a HQ do período: Métal Hurlant. Esta primeira
revista começou com uma periodicidade de três meses e 68 páginas, das quais só
18 em cores. Além de Moebius e Druillet — com personagens como Arzach, Gail e
Lone Sloane — a MH publicava histórias de Richard Corben (Den), Alejandro
Jodorowsky, Enki Bilal, Philippe Caza, H. R. Giger, Alain Voss, Berni
Wrightson, os italianos Stefano Tamburini e Tanino Liberatore (RanXerox) e o
brasileiro Sérgio Macedo. O estilo era cinematográfico, complexo, cuidado,
fantástico, erótico, onírico e eventualmente ultraviolento.
Em abril de 1977, a MH começou a ser publicada nos Estados
Unidos com o nome Heavy Metal — seu ponto alto foi a adaptação em forma de
novela gráfica do poema épico “Paraíso Perdido”, de Milton, assinada por
Terrance Lindalls.